Tour pela Necrópole da Basílica de São Pedro – Parte I

Padrão

Caderninho de viagem aberto em página aleatória: Roma! Visita à Necrópole no subsolo da Basílica de São Pedro. Lembro-me que foi a permissão de visita mais comemorada da viagem de setembro/2012.
Cheguei cedo, por ansiedade, e fiquei sentada por quase uma hora na Praça de São Pedro, bem de frente a janela que o Papa aparece no Domingo para o Angelus. Depois da visita àNecrópole e à Basílica, me sentei para completar os enunciados e palavras soltas que havia escrito. Meu lápis (não gosto muito de caneta), deslizava rapidamente, tentando acompanhar o fluxo de minhas lembranças. Informações que se jogavam no papel diante de palavras chave. Hoje, vejo que fiz um bom trabalho de resgate e compartilho. Claro que não completei tudo ali no meio da rua, continuei no hotel e agora faço consultas para confirmar nomes, datas, entre outros detalhes. Vamos às informações:

15/09/2012
Tour pela Necrópole da Basílica de São Pedro

Questão de ser lembrado

Como se diz no Brasil, “vou lhes contar uma história de um passado recente”: Segundo a tradição romana, quando a pessoa morria, seu espírito continuava ligado ao corpo e, portanto, vivia junto ao túmulo. O funeral era um evento muito importante, pois, se não fosse apropriado a alma ficaria vagando em busca de vingança junto aos parentes. Há quem diga que Imperador Calígula não teve um funeral adequado e foi visto assombrando locais familiares.
Baseados nessa crença, os túmulos eram locais largamente visitados, bem cuidados, com jardins, onde eram oferecidos banquetes em datas significativas para a família e o morto.
Numa cultura que não se acreditava na ressurreição, reencarnação, manter viva na mente a lembrança de alguém era uma forma de prolongar a vida ou até imortalizar quem lhe é importante. Dessa maneira, os túmulos eram verdadeiros monumentos para serem vistos a todo momento única maneira de “imortalizar” os parentes era permanecer vivo na mente das pessoas queridas. Isso era feito justamente com a construção de monumentos para serem vistos e acessados facilmente.
O local escolhido não só tentava obedecer a lei de ser fora da cidade, uma medida sanitária na época, mas quase sempre procurava ser próximo a Via Consular e da Via Cornélia. Vias muito importantes e movimentadas. Até hoje existe a Via Cornélia, mas não possui o mesmo traçado, que passava atrás do Circo de Calígula e Nero. Dessa maneira esse objetivo era atingido, as pessoas tinham acesso fácil ao mausoléu e quando passavam podiam prestar homenagens.
Quando o Circo de Calígula e Nero foi colocado em segundo plano, devido a construção do moderno Coliseu, essa área, fora do entorno da cidade, passou a ser utilizada como cemitério pagão. Local também de peregrinações clandestinas ao túmulo de Pedro, que foi morto no antigo Circo, na época do Imperador Nero, e enterrado nas imediações. Nero culpou os cristãos pelo grande incêndio de Roma.

Você sabia?
O obelisco que hoje está no centro da Praça de São Pedro, em frente a Basílica, foi trazido do Egito a mando de Calígula para ser colocado no centro do Circo que havia concebido. Na construção da Praça, esse obelisco foi movido para a posição atual. Quando passamos à área restrita para acessar o Escritório de Escavações do Vaticano, responsável pela organização da visita a necrópole, podemos ver uma marcação no solo. Antes do início da descida, o guia nos esclarece que aquela é a marca de onde ficava o obelisco, centro da arena, a mesma onde morreu Pedro crucificado.

A visita

Lembro-me que a um dia de céu azul e bastante calor, como estava prestes a visitar locais sagrados da fé católica, me vesti com uma legging e camisa de manga curta. Que calor, minha gente! E mal sabia que lá embaixo estaria mais abafado ainda. Segundo a guia, mesmo no inverno faz calor na área das escavações, a temperatura é mantida. Mas diante de tanta informação e novidade, me esqueci um pouco desse detalhe.
Todas as informações foram passadas por uma brasileira, muito simpática e com domínio total das informações que ansiávamos receber. Não. A guia não era uma freira. Havia chegado pouco depois de eu ter chegado, pensei até que era uma turista que se juntaria ao grupo.
Como disse no post que escrevi ainda durante a viagem: marquei com antecedência a visita; cheguei mais cedo; procurei o balcão de informações, que fica dentro da loja de souvenires, do lado direito da Praça de São Pedro; me dirigi ao Escritório das Escavações do Vaticano, conforme as orientações que recebi; me identifiquei à Guarda Suíça e caminhei até a sala para retirada de meu bilhete para a visita. Tudo muito simples, tranquilo e muito organizado. No horário marcado a guia se apresentou e o grupo, que no máximo poderia ter 12 pessoas, iniciou a visita.
Entramos numa sala com algumas maquetes, que facilitaram muito nossa localização e visualização do que era explicado no subsolo. A partir daí, ultrapassamos uma porta à área de escavações.

Início das escavações

O Papa Pio XI manifestava em vida o desejo de ser enterrado o mais próximo possível da sepultura de Pedro. Quando iniciadas as obras para acomodar o seu caixão, foi preciso baixar um pouco o pavimento e uma frisa foi encontrada. Então o Papa Pio XII decidiu que era o momento de dar início as escavações da necrópole.
Os trabalhos começaram em 1939 e duraram 10 anos. Sendo assim, durante todo o período da 2ª Guerra Mundial as escavações transcorreram. Dizem que tudo foi feito às escondidas, porque havia o temor de que os achados fossem pilhados. Então, justificaram o trabalho como reformas nos jardins do Vaticano, dado o volume de terra que era movido.

Os Túmulos

Túmulo da Família Valéria – O maior e o mais caro
Como o cemitério era pagão, os escravos adotavam os nomes das famílias de seus ex-senhores para identificar as construções. A família Valéria é de linhagem senatorial em Roma, portanto, não estariam sepultados ali. É o maior mausoléu e com decoração mais cara, contendo trabalho em estuque. Foi projetado para conter 170 sepulturas. Havia um jardim privado, parte do mausoléu, onde eram oferecidos banquetes, com poço próprio que fornecia água para regar as plantas, lavar as sepulturas, etc.

Decoração com referência a batalhas
É bastante comum na decoração dos sarcófagos cenas de batalha e bravura. Também sabedoria: o morto representado em cenas com pergaminho e o gesto oratório. A arte da oratória era muito valorizada na Roma antiga. Então, fazer o gesto oratório era pra significar que eram pessoas bem nascidas, cultas.

Decoração com motivos mitológicos
O mosaico mais bem conservado retrata um cena mitológica, em que o deus Mercúrio vai submundo em busca da filha da deusa Ceres: Prosérpina. O famoso mito do “Rapto de Prosérpina”
Você sabia?
Sobre esse mito, há uma escultura de Bernini, artista criou a Praça de São Pedro, na Galeria Borghese, em Roma.

Cristianismo como Culto Pagão
No período que a necrópole era usada, a religião cristã não era reconhecida e considerada pagã. Portanto, os mortos eram enterrados onde desse. Provavelmente, muitos cristãos foram enterrados nessa necrópole pagã. E há indícios como: lápides com o cristograma, formado pelas 2 primeiras letras do nome de Cristo em grego; mensagens com termos usados por cristãos como código de identificação. Há um túmulo que um irmão escreve: “fratre benemerenti”. A palavra “benemerente” era usada como forma de reconhecimento entre cristãos, como um código. Chamar alguém de benemerente (querido) era ligá-lo à religião cristã.

Túmulos Cristãos
Mosaico (ou as marcas que restaram dele) representando Jesus.
É considerado uma das representações mais antigas de Jesus. Hoje nos parece claro, mas talvez não na época. Outro pagão poderia pensar que se tratasse do deus Apolo, por conta dos raios que saem da cabeça. Apolo é o deus sol, mas Jesus também é chamado de “A Luz dos Homens”. Então, temos que pensar que antes de haver uma tradição na representação da figura de Cristo, o que se fazia era procurar os deuses mais conhecidos e tentar dar outro significado às imagens deles. Já que o cristianismo era uma religião perseguida. Qualquer pagão que entrasse num túmulo poderia pensar que se tratar de Apolo, pelos raios de sol; ou folhas de videira, remetendo a Baco ( citação de Jesus aos Apóstolos: “Eu sou a videira. Vós sois os ramos”. A Cruz ainda não era utilizada como símbolo.
Ainda nesse túmulo há a figura de um pescador que lança o anzol, com um peixe que abocanha a isca e outro que volta ao mar. Isso foi interpretado como uma alegoria do Livre Arbítrio: a palavra é lançada, existem aqueles que a aceitam, outros que a recusam. Há também um homem sendo abocanhado por uma baleia. Tudo isso num túmulo pequeno e próximo ao local que designam onde foi enterrado Pedro (Campus Petri)

Campus Petri = área bem debaixo do baldaquino de Bernini da Basílica de São Pedro.

Na próxima publicação: ossos atribuídos a Pedro; Muro dos Grafites; Troféu de Gaio; Memória Constantiniana; a Basílica.

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